Monday, January 15, 2007

Mara Mac

Certos desfiles deixam a platéia nervosa. Quando combina moda e a orientação de um diretor de teatro, então, a coisa pode resvalar para o drama grotesco ou a comédia vaudeville. A entrada do desfile de Mara Mac, com oito carrões Mercedes pretos, empurrados por 30 modelos-figurantes, parecia a prévia de um show constrangedor. Será que a direção de Bia Lessa, craque dos palcos cariocas, comprometeria a coleção de uma das mais antenadas e prestigiosas marcas da cidade?
Felizmente, a história seguiu muito bem. As moças empurradoras, integrantes do conceito da dança da mulher no dia-a-dia urbano, encostaram nos carros e abriram passagem para as modelos circularem no suposto engarrafamento. Nesta hora, o constrangimento acabou, tudo ficou certo. Mara MacDowell apresentou uma coleção primorosa, em tons de cinza, preto, beges, combinando muita malha com volumes nada catastróficos. Muitas assimetrias – isso é, casacos que fecham de um lado, com ondulações, golas armadas, que emolduram rostos, sapatos altos e sapatilhas lembrando sapatilhas de ballet, casacos de tricô sobre saias curtas e leggings feitos de meias. Calças de training e cangurus ganharam aspecto luxuoso, com tricôs por cima. Há sempre um jeito jogado, largado, nos looks montados pelo styling de Rogério S.
Sãs as mulheres modernas, citadinas, que carregam grandes bolsas. Ou uma veste-mochila, linda.
Não acabou por aí. As lindonas se instalaram nos carrões, ao lado dos motoristas que liam jornal. As empurradoras voltaram, de bicicleta. No meio da passarela atravancada, entraram andarilhas, mulheres de roupas mais soltas, calças amassadas, cardigans grandes. Uma blusa com estampa de vasos sangüíneos nas costas, com bermuda fina e legging. Interferência de metalizados. Golas armadas, protetoras. E por fim, Michele Provenzi, Gisela Rhein e Eugenia Kusmina vieram como bailarinas, de saias quase tutus, em preto, se esgueirando descalças, sobre a passarela formada pelos carros.
Talvez nem precisasse tantos carros, tanto esforço. Mas valeu, e a moda foi o verdadeiro show.